No Divã
Confissões de um pai coruja: a Boneca feia
por Odailson Fonseca    Dia 06/07/2016      No Divã

Estou revoltado! Descobri que minha ótima filha tem um péssimo gosto. Sério mesmo! Além de nos levar à loucura – com brinquedos cintilantes e pelúcias importadas – sabe o que ela realmente gostou, a ponto de ter um surto psicótico de descontrole emocional, se perdê-la de vista? Uma patética e horrorosa boneca de borracha, de quinta categoria, com braços tortos e pernas de mamute – além do cheiro de pneu de Chevette com cor de burro quando foge. E o pior? Ela adora esta troglodita com veneração de diva. Não dá! Detesto essa boneca. Êita boneca feia!

Enquanto me acalmo, lembro da minha filha, ligada em 220V, grudada com seu mal-assombrado objeto do coração. Ouvindo seus grunhidos, concluo: primeiro, ela não está nem aí para o que esta boneca significa pra mim, definitivamente isto não é relevante no seu mundo. Segundo, a boneca é incrivelmente anatômica às suas mãozinhas e bracinhos – o tamanho compatível dá sintonia. E terceiro, a simplicidade da boneca é tão descarada que minha filha, com seus neurônios debutando, entende seus detalhes, por isso, embala pra dormir, põe colher na sua boca, passa pente na cabeça e aperta a mamadeira na sua cara – é uma amizade descomplicada. Racionalizando assim, reconheço: sabia que ela não está errada?

1) Deveríamos nos preocupar menos com a importância das nossas coisas para os outros. O que o vizinho tem a ver com o que me pertence? O que é meu é meu – pronto! Às vezes, sucateamos nossa felicidade simplesmente porque ficamos vivendo à mercê da opinião pública. Existem ideias prodigiosas que jamais se libertarão do rascunho só porque seus donos morrem de medo do que outros vão falar – daí, eles procrastinam ousadias por pura vergonha. Minha filha, Thalissa, está certa! Sua afeição pela boneca feia importa para ela, e eu que me reduza à minha insignificância!

Não deveríamos ser assim? Que tal valorizar mais o que é seu, e menos o que poderia ser seu? Possoo lançar um desafio? Agradeça mais pelo que tem e pare de ficar mendigando aprovação pública.

2) Sonhe coisas que caibam nos seus sonhos. Entenda uma coisa: satisfação não é agarrar tudo, é pegar o que cabe. Aceite o tamanho dos seus braços. Minha filha entendeu que boneca de um metro ela só segura pelos cabelos – mas, a boneca feia encaixa direitinho. Olhe pra si: o que você quer? O que você já tem? E o que falta para fundir o “querer” com o “ter”? Seja feliz com o que está acessível. É bom querer degraus mais altos, mas não dá pra saltar do subsolo à cobertura num único passo.

Ah, e as “figuras antipáticas” que bebem suco de caco de vidro com cereal de prego?  Não poucas vezes, gente mal-humorada é quem só sabe visar miragens – afinal, tudo poderia ser melhor, maior e antes! Estes “tipos” azedam o dia nunca elogiando, porque a chatice reflete os bracinhos curtos tentando levantar um hipopótamo. Além de impossível, frustra!

3) Explore o fascínio das coisas simples. Escrevo este texto a milhares de quilômetros de distância da minha filha. A saudade aperta e amordaça ao mesmo tempo. Sinto muito a falta delas. Sabe o que me conforta? Lembranças.

Viver é assim. Existem coisas simples incalculáveis para nossas recordações. Não complique o que Deus simplificou. Momentos com pessoas valem mais do que mega-momentos sem ninguém. Desde o Éden, o ser humano foi feito pra ser complexo e descomplicado. Aproveite o alto valor das experiências gratuitas. Curta o simples!

Tá, mas e a boneca feia? O que fiz com ela? Perdi o round aprendendo muito com as duas. De repente, a cena que surge é da minha filha, com passos entortados, abraçando forte sua bonequinha no peito – um abraço aconchegante de quem ama, e possessivo de quem protege. Ela dá as costas pra mim, explorando seu próprio mundo novo, e desaparece lentamente na direção do corredor. Não a vejo mais, só escuto as pisadinhas secas e seu idioma ininteligível. Mas lá vai ela, eu sei, sem se preocupar com os outros, apaixonada pelo que cabe nos braços, e vivendo feliz sua vidinha simples.

Junto com sua preferida boneca feia. (E será que os feios não somos nós? Vai entender…)

Odailson Fonseca
COMENTÁRIOS
Comente com
MAIS LIDAS