No Divã
Descobri que tenho diabetes. E agora?
por Rúbia Albuquerque    Dia 18/09/2015      No Divã

Acredito que praticamente todo mundo conhece ao menos uma pessoa que tem diabetes. De acordo com uma pesquisa de 2013, o número de pessoas com essa doença havia aumentado 40% nos últimos 6 anos. A previsão é que o número de diabéticos praticamente dobre até 2035. Só em 2014, quase 5 milhões morreram em decorrência da diabetes. E sabe o que é pior? Estima-se que quase metade das pessoas com diabetes ainda não são diagnosticadas – e isso vai estar refletido nas complicações futuras da saúde.

Pesquisando mais sobre o assunto, encontrei a história da Marina Colaço, que hoje tem 30 anos e descobriu aos 16 que estava com diabetes. Sem histórico na família, chegou a entrar num estado de coma, ficou 10 dias na UTI e hoje é a responsável pela página Diabética Tipo Ruim. Conheça melhor a sua história:

18-interno-post-diabetesEu sempre fui muito ativa na época de colégio. Com 16 anos eu fazia judô, treinava muito, e mantinha meu peso controlado. Eu nunca fui de comer doce, eram os salgados as minhas tentações diárias da cantina.
No colégio comecei a não enxergar muito bem a lousa e passei a usar óculos nas aulas. Sentia uma sede absurda, mas tudo era associado aos treinos de luta que eu fazia. Os xixis frequentes foram mascarados pela quantidade de água q eu bebia. Eu emagrecia muito rápido, mas na época era ótimo, porque eu conseguia me enquadrar em uma chave onde eu era a atleta mais pesada na última categoria infantil. Acredito que por causa do esporte todos os sintomas foram muito camuflados.
Até que um dia, em um passeio com a escola eu passei o dia todo tomando coca-cola normal. O meu corpo não aguentou e eu passei a madrugada toda vomitando. Normalmente eu tinha infecção alimentar por comer lanche fora de casa, então achamos que poderia ter sido isso. Para tirar o gosto do vomito da minha boca, minha mãe me dava balinhas de coco fresco (hahaha), mal sabia ela que estava me matando cada vez mais.
Quando amanheceu e ela percebeu que eu não melhorava como de costume, fomos para o hospital. Eu desmaiei e fui levada as pressas para a UTI. A minha glicemia estava em torno de 600/700.
Lembro da minha mãe chorando na cama, minha tia visitando, meu pai e meu irmão. Lembro dos enfermeiros me dando banho, e da TV ligada. Lembro de pedir para depilarem minhas pernas porque eu só pensava em morrer com as pernas peludas, risos. E o mais legal foi que um dos enfermeiros roubou um kit de gilete da sala de partos, e raspou minhas canelas :), entao eu senti que podia morrer em paz.
Eu entrei no hospital em um dia e acordei uns 5 dias depois. Fiquei na UTI por uns 10 dias no total, e depois mais uns 10/15 dias de quarto e tive alta.

E é aí que sua vida muda.

Minha mãe largou o emprego que ela tinha em uma joalheira famosa para trabalhar como balconista em uma farmácia de produtos para diabéticos. Ela queria conviver com pessoas diabéticas e entrar fundo nesse mundo. Com o tempo você percebe que não precisa ser tudo tão sofrido e você vai aprendendo a reconhecer os sintomas do seu corpo, e perceber os seus limites.
Depois, na fase adulta, o mais impactante pra mim foi mudar os hábitos de modo geral, porque mesmo não fazendo a dieta corretamente, como deveria ser, você acaba estando alerta o tempo todo.
Eu sofri alguns preconceitos ao longo da vida, de pessoas que olhavam enojadas, com pena, ou achavam que iam “pegar” diabetes só de ficar perto de mim. Até algumas meninas que não queriam ser vistas comigo na praia pelo simples fato de que eu uso uma bomba de insulina presa ao biquíni. Ou a mãe de um ex-namorado que disse que eu não poderia dar filhos saudáveis e perfeitos para ele.18-interno-diabetes-africa
Numa madrugada qualquer, conversando com um amigo, surgiu a ideia de criar o Diabética tipo Ruim. Eu queria trazer o sentimento de normalidade para as pessoas com a mesma doença que eu. Os diabéticos perfeitos são raríssimos por ai, e os Diabéticos Tipo Ruim são a grande maioria. Mas ninguém tem coragem de falar que é difícil, que é um saco, que é uma merda, que é uma luta diária, que você tem medo, e tudo mais…e eu criei essa coragem, e tem dado certo.Uma vida cheia de restrições precisa ter um pouco de alegria porque senão você pira. Eu acredito em achar o meio termo das coisas e viver sem culpa.
Acho que o mais importante para um diabético é sempre trabalhar a auto estima. Seja forte! Não dependa dos outros para levar a vida que você quiser levar.
Meu sonho era conhecer a savana africana. Desde pequena eu tinha vontade. E eu fui, sozinha. Levei carta de médico, levei estoque de insulina, de glicose, de medidor, tudo! Planejamento é a alma do diabético. Eu penso assim: essa doença não vai nunca me paralisar.
Se você é um parente/amigo/namorado/colega de trabalho: pense antes de falar. Se coloque no lugar de uma pessoa que já tem problemas e pesos demais na vida. Cuidar de um diabético é entender. É dar espaço para que a pessoa tome suas próprias decisões. A gente já tem que lidar com um milhões de conflitos internos e ter que lidar ainda com alguém que não entende o que a gente quer pra nossa vida, é só mais um problema, e deveria ser uma solução.

Conheça mais o projeto da Marina no link: Diabética Tipo Ruim.

Rúbia Albuquerque
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