No Divã
Minha filha não é a única criança do parquinho
por A Redação    Dia 04/08/2016      No Divã

Odeio parquinhos infantis. E se você tem uma criança, isso pode ser um problema.

Fujo deles como gato da água. Até podiam exterminá-los! (Não os gatos!) Se “a primeira vez a gente nunca esquece”, lembro quando tudo começou:

Era uma vez…, e eu achava minha filha precoce, iluminada, prodigiosa, superdotada e única azeitona na empada do mundo. Ela era o Sol, e todo resto asteróide. Até o trágico dia que fui “gentilmente” convencido pela mãe a levá-la no Playground do Parque da Cidade. Lá, meu chão desabou, o Sol apagou, e a azeitona virou grão de farinha. Que decepção aterradora! Constatei a pior verdade esmurrando meu ego de pai-coruja: minha filha não era mais a única no mundo! (Um dia chegará sua vez!)

Já viu como tudo é caótico neste lugar maluco? Tem crianças de todos os lados, berram todos os decibéis e pulam mais que trio elétrico. Juntas, são um enxame de seres voadores e rastejantes turbinados com nitroglicerina explosiva. Agora, quando vi minha delicada “princesinha de cristal” perdida nas entranhas do “planeta dos macacos”, juro que morri um pouco mais dentro de mim. Os grandões trombavam nela, os pequenos corriam dela, e eu queria invadir a farra pra gritar: “Ei! Olhem minha filha ali! Ela é única, viu? Uma azeitoninha! Parem todos e a admirem!” Porém, silenciei mergulhado na vergonha de ser tão alienado e orgulhoso. No parquinho, todos brincam, todos pulam, todos são todos.

O problema são pais prometendo pros filhos que os pequeninos são o centro do universo. É a “educação heliocêntrica”. Não creio que sejamos de todo errados – mas, extremos estragam mais que ajudam. Ainda bem que a saga do parquinho me puxou de volta pra Terra.

Voltemos ao local do pesadelo: eles sobem no escorregador e se penduram em tudo que é “segurável” numa dinâmica enlouquecedora. Mas é incrível como se entendem!

Precisamos equilibrar a valorização do carinho paterno com a realidade de um mundo-palco repleto de outros prodígios talentosos vivendo bem coletivamente. Se não cuidar, somos nós quem estragamos, acredita?

Estou pegando pesado, certo? Eu sei! O parquinho também pegou pesado comigo.

Pais mal-avisados estão ensinando a seus filhos lições que se lhes demonstrarão perigosas, e plantando ao mesmo tempo espinhos para os próprios pés. Em grande parte, os pais seguram nas mãos a futura felicidade de seus filhos. Repousa sobre eles a importante obra de formar o caráter dos mesmos. Os ensinos ministrados na infância os acompanharão através da vida” (White, T. Seletos 1, p. 143). Não temos alternativa: ou assumimos o controle de nossa “corujice” super protetora, ou fabricaremos futuros adultos frágeis como casca de ovo. Não suporto ver minha filha esperando na fila do escorregador – ela merecia passe VIP para uma gangorra exclusiva com banco de couro – porém, suportarei ainda menos se um dia a vir com faniquitos descontrolados por não saber esperar ou respeitar o próximo.

De vez em quando é bom passearmos no parquinho. Apenas observe e lute consigo mesmo. Um filho é coisa única, exclusiva e maravilhosa – mas os filhos dos outros também são coisas únicas, exclusivas e maravilhosas. O canteirinho de areia é um espaço pra vários, no pula-pula cabe mais de um, e a casinha colorida de madeira tem entrada pra todos. Aprenda a lição do playground: não engane seu filho como umbigo do mundo – tem mais gente boa por aí e dá pra aprender muito com eles. Dê-lhes condições privilegiadas, pavimente sua estrada do futuro, elogie-os sistematicamente fortalecendo sua auto-estima, no entanto, não menospreze a importância do pé no chão. O desenvolvimento saudável reflete a admiração controlada, a proteção equilibrada e as permissões com limites.

Que o simples parquinho nos ensine a ser grandes pais.

E brincando!

A Redação
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